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Meu fundo de reserva

Da edição de maio de 1992 dO Arauto da Ciência Cristã


Quando Eu Era menina, havia uma tradição religiosa pela qual, ao chegar aos sete ou oito anos, a criança participava de uma cerimônia religiosa que era considerada uma ocasião importante. Parentes e amigos eram convidados a uma pequena festa e cada um trazia um presente em ouro: um anel, um pequeno broche, ou brinquinhos.

Naquele país pobre da Europa, onde eu morava antes de mudar-me para o Brasil, tais presentes tinham uma finalidade muito prática. Eles serviam como uma poupança, um fundo de reserva para a criança. Em caso de necessidade, ou numa emergência, poder-se-ia vender uma peça de ouro.

Quando chegou minha vez, eu também ganhei algumas coisas: uma pulseira, um broche com meu nome gravado e algumas coisinhas mais. Um tio meu, porém, de quem eu gostava muito, não pôde me dar nada de ouro, nem uma medalhinha. Ele me deu um livro. O título era: “A Bíblia para as Crianças.” Trazia quase a Bíblia toda, Antigo e Novo Testamentos, reescrita numa linguagem mais simples. Era um livro grosso, com letra miúda e umas poucas ilustrações em sépia. Não parecia nada atraente para uma criança do segundo ano primário. No entanto, li-o inteirinho em algumas semanas, o que é certamente algo notável para uma criança daquela idade. Não conseguia parar de ler até chegar ao fim. Por que aquele livro me atraiu tanto?

Há uma explicação. Quando eu nasci, meu país acabara de sair de uma guerra devastadora. Minhas primeiras lembranças incluem a visão de prédios bombardeados e pessoas sem casa para morar. Vizinhos e parentes falavam freqüentemente de membros da família que não haviam sobrevivido. Eu estava realmente assustada com o mundo que via. As pessoas ao meu redor se consideravam vítimas indefesas. Sentiam-se vítimas das circunstâncias, de outras nações, da pobreza, até de Deus. Ao passo que, naqueles relatos da Bíblia, fiquei conhecendo pessoas que enfrentaram todo tipo de dificuldades e as venceram. Não eram vítimas. E a Bíblia também mostrava como eles haviam vencido as dificuldades: pela confiança em Deus como protetor e amigo, pela fidelidade a Ele.

Lembro-me claramente da impressão que a história de José me causou. A Bíblia conta, no livro do Gênesis, que ele havia sido vendido por seus irmãos para ser escravo e fora levado ao Egito. Tinha por volta de dezessete anos, na época, era jovem. Jacó, pai dele, amava-o mais que aos outros filhos. Num repente de ciúmes e inveja, os irmãos primeiro conspiraram para matá-lo e, em seguida, decidiram vendê-lo como escravo a alguns mercadores. Essa é o que se chamaria de experiência traumática, não acham? Ele foi privado do convívio amoroso de seu pai e do irmãozinho, Benjamim, foi arrancado do meio ambiente que lhe era familiar e de um modo de vida que provavelmente era bem confortável. Agora devia viver em terra estranha, cercado por desconhecidos, quase certamente fazendo trabalhos pesados que nunca havia feito antes. Afinal, era um escravo.

Assim mesmo, ele não agiu como uma pobre vítima do destino. Ele fez bem as tarefas que lhe eram designadas. Tanto assim que, como diz a Bíblia, Potifar, seu patrão, viu “que o Senhor era com ele.” Em outras palavras, José expressava as qualidades de Deus naquilo que fazia e isso era percebido pelos que o rodeavam. As qualidades que ele expressava, que davam tão bons resultados, não eram a comiseração própria, o ressentimento, o desejo de vingança e coisas afins. Podemos até achar que sentimentos desse tipo seriam compreensíveis, depois de tudo o que havia acontecido, mas aí ele não teria conseguido os bons resultados de que a Bíblia nos fala. Ele deve ter manifestado qualidades derivadas de Deus, tais como alegria, boa vontade, cuidado no trabalho, honestidade, atenção e assim por diante. Expressando essas qualidades, José não estava agindo como “vítima”, por isso não o foi.

Algum tempo depois, ele teve de enfrentar a calúnia e uma prisão injusta. Entretanto, mesmo na prisão, “o Senhor. .. era com José, e lhe foi benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro,” diz a Bíblia. O resultado natural foi que todos na prisão confiavam nele e, com isso, ele podia exercer uma atividade útil e ter amizades. Mesmo nos piores momentos de sua vida, quando escravo ou preso, José não renunciou à capacidade nem à disposição de expressar o bem. Assim sendo, ele nunca foi vítima.

Ficou tão claro para mim, sendo eu criança, que eu poderia agir como José agira. Ou seja, eu poderia expressar boas qualidades, independentemente das circunstâncias. Eu vinha me sentindo humilhada, na escola, por ser uma das alunas mais pobres da classe. Nessa época, em vez de ficar remoendo o problema como vinha fazendo, comecei a concentrar minha atenção em ser boa aluna, em ser prestativa com as colegas e com as professoras. Nada de grande, nada de muito especial, mas teve o efeito duradouro de me libertar daquela sensação horrível de ser “vítima”. O exemplo de José foi muito marcante em minha vida.

Foi assim que eu comecei a descobrir a Bíblia e o poder do bem, o poder de Deus. Quando, alguns anos depois, no começo da adolescência, consegui a Bíblia completa, foi-me muito natural começar a estudá-la e a lê-la mais a fundo. Nunca precisei vender nenhuma daquelas jóias que ganhei quando criança. Mas o presente que meu tio me deu, isto é, a familiaridade com a Bíblia, tem sido um fundo de reserva sempre à mão, do qual tenho sacado todos os dias e nunca se esgota.

Quando mais tarde, na juventude, conheci a Ciência CristãChristian Science (kris´ tiann sai´ ennss) e comecei a ler Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras de Mary Baker Eddy, a Descobridora e Fundadora da Ciência Cristã, esse fundo de reserva de repente se multiplicou. Comecei a descobrir a lógica, isto é, as regras, ou leis, que estavam por trás dos acontecimentos bíblicos. É por isso que Ciência e Saúde é valioso para ajudar a entender e pôr em prática a mensagem da Bíblia. Por exemplo, a Sra. Eddy escreve: “O bem que fazes e incorporas te dá o único poder que se pode alcançar.” Esse bem a que ela se refere é o reflexo de Deus. Explica o que José fez. Ele refletia o bem de Deus, que é o único poder que existe. Foi assim que ele conseguiu elevar sua vida acima das circunstâncias, restabelecer a harmonia em sua família e salvar da fome a nação toda e até povos vizinhos.

Conhecer o bem é fundamental para nossa habilidade de fazer o bem. A Ciência Cristã nos ensina que Deus é o bem, logo precisamos conhecer a Deus, em primeiro lugar. É disso que a Bíblia trata: Deus e Sua onipotência, onipresença, total bondade, e o homem como reflexo dEle.

Alguns talvez digam: “Tudo bem, mas a Bíblia é muito difícil de se entender. Há tantas interpretações, como posso saber qual é a certa?”

Não podemos esquecer que a mensagem da Bíblia é espiritual, não material. Portanto, não pode ser entendida mediante o mero raciocínio humano e análise intelectual. A Sra. Eddy escreve em Ciência e Saúde: “As Escrituras são muito sagradas. Nosso objetivo deve ser torná-las compreendidas espiritualmente, pois só com essa compreensão se pode alcançar a verdade.” E mais adiante diz: “É essa percepção espiritual das Escrituras que eleva a humanidade acima da moléstia e da morte e inspira a fé.” Logo, para compreender a Bíblia, devemos usar nosso sentido espiritual.

A Ciência Cristã nos ensina que o sentido espiritual é o oposto do sentido material; é a capacidade de discernir “as coisas do Espírito” e compreender o bem espiritual. Todos nós temos o sentido espiritual. Em realidade, é a maneira natural de pensar, porque somos filhos de Deus e Ele é Espírito. Por refletir a Deus, podemos entender as coisas espiritualmente, podemos discernir a mensagem divina da Bíblia.

A Sra. Eddy diz, em Ciência e Saúde, que “O sentido espiritual é a capacidade consciente e constante de compreender a Deus.” Como essa capacidade é consciente e constante, nunca nos falha. Temos, porém, de pô-la em prática. A leitura e o estudo de Ciência e Saúde nos ajudam a desenvolver nosso sentido espiritual, pois espiritualizam nosso pensamento, ou seja, com esse estudo nosso pensamento focaliza melhor as coisas do Espírito.

Cristo Jesus, a respeito de quem versa todo o Novo Testamento, é um ótimo exemplo de sentido espiritual. Seu pensamento estava sempre tão centrado em Deus que, rapidamente e com naturalidade, conseguia ver qualquer situação ou qualquer questão, do ponto de vista espiritual. Foi essa visão espiritual que lhe possibilitou curar os doentes instantaneamente e fazer todas as outras obras maravilhosas. Por exemplo, quando ele sentiu que as multidões deveriam receber algum alimento antes de serem dispensadas, os discípulos, com o pensamento voltado para o sentido material, só conseguiam ver alguns pães e peixes. Mas Jesus “deu graças”, reconheceu que Deus era a fonte do bem para o homem, era seu suprimento, e viu que aquilo que poderia abençoar alguns, deveria também abençoar a todos. E o pouco alimento foi suficiente para mais de quatro mil pessoas.

Às vezes ouvimos as pessoas dizerem: “Ora, a Bíblia é um livro tão antigo! Que significado podem ter aquelas histórias para nós, hoje em dia? O mundo mudou tanto!” Certamente o mundo mudou bastante. A cidade onde eu moro, São Paulo, no Brasil, passou por mudanças enormes, profundas, com o passar dos anos. Mas Deus não mudou nem um pouquinho. Ele continua sendo supremo sobre Sua criação, ainda ama o que Ele criou e continua cuidando de Seu filho, o homem. Portanto, Suas leis são ainda as mesmas. As mesmas leis divinas, que atuavam nos tempos bíblicos, estão atuando hoje.

Admito que é muito pouco provável que, em nossa época, alguém seja vendido como escravo, como José. Mas podemos nos encontrar em meio a estranhos, numa escola diferente, ou num novo emprego, ou talvez nos sentindo inferiores (como eu me sentia). Pode acontecer de recebermos um castigo injusto e ficarmos ressentidos. Pode ser até que nos sintamos "aprisionados” por um emprego humilhante ou sem interesse, mesmo achando que merecíamos algo melhor. O que podemos fazer? Podemos expressar as qualidades de Deus, como José. Podemos perseverar nisso, com alegria, tendo a expectativa do bem. Já sabemos qual foi o resultado disso na vida de José. Nós também podemos esperar bons resultados, pois a mesma lei divina do bem, que atuou no caso de José, está atuando hoje. E essa lei diz que Deus tem todo o poder e Ele é bom.

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A Missão dO Arauto

Quando Mary Baker Eddy estabeleceu O Arauto em 1903, ela disse que sua missão era a de "anunciar a atividade e a disponibilidade universal da Verdade" (The First Church of Christ, Scientist, and Miscellany, p. 353).

O Arauto registra, em suas páginas, a transformação que ocorre na vida de muita gente e mostra que cada um de nós pode chegar à Verdade.

Que alegria pensar que o efeito da Verdade atua na consciência humana, trazendo cura e renovação! Nosso Mestre, Cristo Jesus, nos prometeu algo que de fato está se cumprindo: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (João 8:32).

Cyril Rakhmanoff, O Arauto da Ciência Cristã, edição de julho de 1998
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