Às vezes, temos a opção de abrir mão de coisas supérfluas. Seja quando arrumamos um armário, seja quando organizamos um depósito, ou mesmo quando nos mudamos para uma casa menor, encontramos coisas que já não têm mais valor para nós, mas que podem ser úteis a outra pessoa. Podemos doá-las, ou continuamos a nos apegar a elas?
Outras vezes, as circunstâncias nos obrigam a renunciar a coisas que valorizamos. Um incêndio, um roubo ou o fim de um relacionamento. Quando esses eventos perturbadores acontecem em nossa vida, podemos nos sentir subitamente separados daquilo que significa muito para nós.
Em todos os casos, a Ciência Cristã nos convida a redescobrir o fato de que aquilo que é essencial nunca se perde realmente. Para começar, devemos mudar a maneira como encaramos as “coisas”.
Da física à economia, as ciências baseadas na matéria atribuem valor ao que pode ser visto, sentido, ouvido e mensurado. Mas, Mary Baker Eddy — uma pensadora científica e cristã dedicada — percebeu que essa equação não faz sentido. O valor real transcende o humano e alcança o divino. A Sra. Eddy escreveu em seu livro-texto, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras: “A Ciência divina, que está acima das teorias físicas, exclui a matéria, explica que as coisas são pensamentos, e substitui os objetos do senso material por ideias espirituais”(p. 123).
As coisas são pensamentos e os objetos são substituídos por ideias espirituais. Como isso funciona? E será que isso pode, de fato, proporcionar satisfação?
Na verdade, essa é uma maneira muito antiga de avaliar aquilo que é essencial na vida. A Bíblia apresenta o reino de Deus, do Espírito, como algo que se encontra e se percebe por meio da oração. Os profetas encorajavam os israelitas a buscar refúgio e resiliência no Espírito, durante períodos de adversidade, desde guerras e fome até instabilidade política e injustiças sociais.
Fundamentado nessas mensagens espirituais, Cristo Jesus indicou a seus seguidores o caminho rumo a esse reino espiritual e para isso utilizou parábolas a respeito do que era materialmente tangível, a fim de explicar o que não era. O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido em um campo, ou a uma semente pequenina, ou ao fermento que leveda a massa. Ele nos ensinava a valorizar a verdadeira substância da vida: as coisas invisíveis do Espírito, ocultas aos sentidos materiais. Ele ensinou que esse tesouro, guardado em nosso íntimo — em nosso coração e pensamento — flui para nosso viver diário na forma do suprimento necessário, orientação inspirada ou segurança e saúde imediatas.
Nossos depósitos mentais podem conter quantidades imensuráveis de bondade, sabedoria, generosidade, alegria, amor, paz, inspiração, integridade, criatividade — a lista é interminável. Se essas qualidades valiosas estivessem restritas a objetos materiais ou circunstâncias humanas, seriam perpetuamente vulneráveis e inevitavelmente se perderiam. Mas, por serem derivadas de Deus, o Espírito, elas são inesgotáveis. Nenhuma experiência humana pode extinguir a fonte ou a expressão dessas qualidades, que são divinas, não podem ser extintas e estão sempre presentes; elas continuam a se manifestar de maneiras significativas e tangíveis, mesmo quando parecem totalmente ausentes.
Em um dos momentos mais comoventes da Bíblia, no qual uma perda devastadora se torna restauração permanente, Maria Madalena vai ao local onde Jesus fora sepultado após a crucificação. Ao ver o túmulo vazio, ela supõe que o corpo tenha sido removido, e sente uma profunda tristeza. Por estar tão focada nas circunstâncias, ela nem mesmo reconhece Jesus ressuscitado, quando este fala com ela, até que a chama pelo nome: “Maria”. Voltando-se com espanto e alegria, ela responde “Mestre” em aramaico, e faz menção de aproximar-se dele (ver João 20:16).
Jesus, reagindo de modo inesperado à aproximação dessa fiel seguidora, diz: “Não me detenhas”. Versões mais modernas da Bíblia traduzem essa frase como “Não te apegues a mim” (ver João 20:17). Maria precisava abandonar um senso pessoal limitado a respeito de seu Mestre. Ele estava se elevando para além daquela percepção estreita e imperfeita de vida na matéria, rumo à demonstração da natureza eterna e real da vida que está no Espírito e é do Espírito. Jesus provou que todos nós somos espirituais, não materiais. Somente quando nos identificarmos como espirituais compreenderemos que somos “coerdeiros com Cristo” (ver Romanos 8:17). O amor pela pessoa de Jesus tem de se aprofundar no amor pelas ideias que ele ensinou, colocando-as em prática em nossa vida, e seguindo seu exemplo.
Após a ascensão, quando Jesus desapareceu da vista dos discípulos, estes retornaram a Jerusalém “tomados de grande júbilo” (ver Lucas 24:52). Eles não haviam perdido o que era realmente valioso. As coisas como pensamentos e a substituição de objetos por ideias foi o que estabeleceu o Cristianismo original com poder espiritual e fraternidade duradoura.
Não se apegue. Não há necessidade de se agarrar a nada. Quer se trate de um relacionamento, de uma herança de família ou de um imóvel pelo qual se tenha grande apreço, nós podemos — por meio dessa oração contínua de desprendimento — traduzir a percepção material das coisas que valorizamos para uma compreensão espiritual de suas qualidades eternas. E reconheceremos essas qualidades valiosas expressas de maneiras novas, inesgotáveis e significativas.
Robin Hoagland
Redatora Convidada
