O escritório de meu pai era um lugar onde eu não podia entrar. Certo dia, porém, ele me levou até lá para conversarmos. Eu subi na cadeira que ficava diretamente oposta à dele, onde ele estava sentado com as costas retas, com um ar profissional e sério. Ele me olhava fixamente do outro lado de sua imponente mesa, a uma distância que me parecia enorme.
Eu era uma garotinha de quatro anos e meio, e minhas pernas balançavam na cadeira. Depois de ter brincado no jardim, eu estava um pouco suja, e não me sentia à vontade com toda aquela formalidade. Nunca havia visto esse lado sério e reservado de meu pai — em enorme contraste com o papai que me pegava no colo para dançar pela cozinha, ao som dos acordes de Bing Crosby que tocavam no rádio, enquanto eu ria alegremente.
Fiquei pensando no que eu teria feito de errado. Ele entendeu meu olhar, sabia que eu estava aflita para sair dali, e disse com total sinceridade: “Deus é seu Pai; eu sou seu papai”.
“Eu sei”. Minhas pernas continuavam balançando.
“Você sabe?” Ele pareceu bastante aliviado. Pedi licença para ir brincar, e foi só isso.
Na Escola Dominical da Ciência Cristã, o professor havia falado sobre Deus ser nosso Pai-Mãe, que nos criou espiritualmente. Mesmo ainda tão pequena, eu sabia que podia contar com Deus para me ajudar a qualquer momento, até mesmo à noite, porque Ele está sempre conosco. Deus havia me confortado quando eu sentira medo, e havia me curado quando precisara ser curada.
Poucos meses depois daquele momento com o papai, minha mãe se mudou da nossa casa. Uma irmã e eu fomos morar com ela, ao passo que meus irmãos mais velhos ficaram com o papai.
Minha compreensão a respeito de Deus como Pai foi crescendo e me ajudou durante esse período difícil. Sentia a presença dEle comigo. Eu me sentia segura, corajosa, amada, confiante e capaz. Desejo que todas as crianças vivenciem aquele conforto que eu senti. De acordo com Cristo Jesus, elas têm esse direito. Ele disse: “A ninguém sobre a terra chameis vosso pai; porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus” (Mateus 23:9).
Ao falar sobre essa afirmação feita por Jesus, Mary Baker Eddy, a fundadora desta revista, escreveu que ele “Reconhecia o Espírito, Deus, como o único Criador, e portanto como o Pai de todos” (Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, p. 31).
À medida que fui crescendo, a confiança que eu tinha, durante a infância, na sabedoria do papai, se transformou em uma compreensão mais clara a respeito de Deus, o Espírito, como o Pai que me ajudou a atravessar os desafios com que me deparei quando adulta. Ao longo dos anos, minha admiração por meu pai também cresceu. Seu amor e apoio eram constantes. Eu sabia que ele, também, enxergava minha verdadeira identidade espiritual como filha perfeita de Deus. Independentemente daquilo que eu ou minha irmã estivéssemos enfrentando, ele nos orientava e orava por nós.
Por meio da oração, todos nós somos capazes de obter uma visão mais clara a respeito de Deus como o Amor, o bem sempre presente, guiando-nos e atendendo às nossas orações. Nosso Pai nos abençoa a todo momento.
Por isso, agradeço a Deus, hoje e todos os dias, não apenas pelo meu pai, mas por Deus ser o Pai de todos nós.
