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Original para a Internet

“Abismo intransponível”

DO Arauto da Ciência Cristã. Publicado on-line – 3 de agosto de 2026


A vida talvez pareça uma série de pontes que interligam eventos bons e acontecimentos perturbadores. Podemos nos perguntar: em que momento essa experiência começou e por quê? Para onde ela está me levando e quando terminará? À primeira vista, todas essas ocorrências parecem fazer parte normal da história humana. Contudo, existe um fato mais profundo e verdadeiro, que se sobrepõe ao quadro material: o fato da continuidade do bem.

Esse fato é espiritual, e revela nossa conexão constante e ininterrupta com o bem que se desdobra — o bem que é Deus, o Espírito, livre de lacunas, falhas e desarmonia.

A história bíblica de José parece ser, à primeira vista, uma sucessão de eventos ruins interligados, começando com a traição por parte de seus irmãos, o que fez com que ele fosse levado como escravo, fosse vítima de uma acusação falsa e, por fim, preso. Parecia que ele havia sido arrancado do pai que o apoiava e amava profundamente. Contudo, ao examinar mais a fundo a jornada espiritual de José, percebemos algo encorajador. Em cada situação, ele encontrou o propósito divino para ele e sentiu o cuidado de Deus.

Em vez de deixar que sua história fosse definida pelos maltratos sofridos, ​​ou pelo temor de mais sofrimento, ele perseverou a serviço de Deus e, por fim, pôde abençoar um grande número de pessoas, graças ao discernimento espiritual, sabedoria e obediência à orientação divina. José descobriu a continuidade ininterrupta de sua relação com Deus, o bem, o que resultou na oportunidade de fornecer alimento para muitos, inclusive seus irmãos, durante sete anos de escassez e fome. Ao voltar a se reunir com os irmãos, inesperadamente, quando já ocupava uma posição de autoridade, José não buscou vingança. Em vez disso, disse-lhes: “Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento” (Gênesis 45:7).

A Ciência Cristã ensina que Deus, o bem, é o Princípio, um fundamento sólido, uma Rocha sobre a qual estamos seguros. Esse Princípio imutável define e mantém o homem (cada um de nós, em nossa verdadeira identidade espiritual) como reflexo de Sua imagem e semelhança. E, visto que Deus é todo o bem, essa relação permanente de Deus com Seu reflexo, o homem, foi e será para sempre constantemente boa, sem lacunas nem rupturas, pois essa relação forma uma unidade.

Cristo Jesus demonstrou claramente que a identidade dele e a dos outros estavam indissoluvelmente unidas ao Pai. Ele disse: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30) e “…Em verdade, em verdade eu vos digo: antes que Abraão existisse, eu sou” (João 8:58). Essa união não era limitada por um começo (nascimento) nem por um fim (morte). A ressurreição de Jesus provou a continuidade da unidade do homem com a Vida divina, Deus, expressa para sempre na continuidade do bem. Quando compreendemos isso, vivenciamos um “grande livramento”, ficamos livres dos elos limitantes com o passado e livres do medo do futuro.

Mary Baker Eddy, a Fundadora da Ciência Cristã, enfrentou muitas rupturas e empecilhos em sua vida, antes de descobrir a Ciência Cristã. Posteriormente, ela pôde declarar: “A Ciência divina do homem é tecida em uma só peça consistente, sem costura nem rasgão” (Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, p. 242). Apesar da perda precoce de entes queridos, da doença crônica e de outras dificuldades, ela encontrou no Espírito a continuidade do bem, expressa na sólida relação do homem com Deus, como filho puramente espiritual do Amor divino e da Vida divina, e o resultado disso foi a cura.

Podemos seguir os passos de nossa Líder na compreensão da base sólida que sustenta a continuidade do bem em nossa vida. A cada dia, podemos compreender algo mais a respeito de nossa relação inquebrantável com Deus, e perceber que jamais vivemos em uma vida fragmentada, com paradas e recomeços intermitentes, ou um começo e fim inexplicável. Por meio da Ciência Cristã, podemos demonstrar que nossa capacidade de superar essas mentiras mortais está assegurada pela lei do Princípio divino, e ver que essas mentiras deixam de influenciar nossa vida. Podemos constatar que temos a liberdade de viver a continuidade do bem e vivenciar alegria, progresso e cura.

Talvez pareça um exagero acreditar que a bondade de Deus esteja se desdobrando continuamente em nossa vida, apesar dos reveses humanos, assim como ocorreu na vida de José e na da Sra. Eddy. No entanto, o desejo espiritual de procurar compreender a Deus ilumina nossa jornada e nos dá força para persistir. Não precisamos nos resignar a passar por uma série de eventos e lembranças, algumas doces e outras amargas.

À medida que aprofundamos nossa compreensão a respeito de Deus, por meio do estudo da Ciência Cristã, começamos a perceber que nossa verdadeira história é, em realidade, o desdobramento contínuo de nossa verdadeira natureza espiritual, que é o reflexo, a reflexão, de Deus, a Mente — é Sua imagem e semelhança. Visto que no bem de Deus não há lacunas, Seu reflexo é a expressão contínua de todas as qualidades divinas. Descobrimos que não existe nenhuma ponte ligando nossa verdadeira identidade ao sonho mortal de vida na matéria. Junto ao título marginal “Abismo intransponível”, em Ciência e Saúde, a Sra. Eddy escreve: “Não há ponte sobre o abismo existente entre dois estados tão opostos como o espiritual, ou incorpóreo, e o físico, ou corpóreo” (p. 74).

Eu tive uma experiência que ilustra essa afirmação. Minha família estava se preparando para viajar nas férias que começariam em algumas semanas, e tínhamos muitas coisas a fazer, antes de partir. Uma de minhas tarefas consistia em subir em uma escada alta e limpar as calhas do telhado. Para agilizar o processo de remoção das folhas que obstruíam as calhas, decidi usar um ventilador preso às minhas costas. Em um determinado momento, já no alto da escada, o peso do aparelho me desequilibrou, e a escada se deslocou.

Caí no chão de concreto e, na queda, bati a cabeça com força contra a parede da casa. Minha esposa ouviu o barulho da queda, veio rápido e, imediatamente, começou a declarar, com firmeza e em voz alta, algumas verdades a respeito do cuidado de Deus, que é infinito e nos rodeia. Eu perdia e recuperava a consciência, mas ouvi a maior parte de suas declarações enfáticas da verdade. Com a ajuda dela, consegui me levantar e entrar em casa, e ela fez uma bandagem no corte da minha cabeça.

Nas semanas seguintes, fiquei atento à mensagem divina, e afirmei em oração o fato de que nada poderia me tocar, e de que minha verdadeira vida em Deus jamais havia caído de Sua onipresença. Entendi que eu estava inteiramente dissociado de qualquer queda, erro ou momento de separação do abraço do Amor. Com essa verdade claramente discernida, e com a cicatrização rápida do ferimento na cabeça, eu me senti livre para fazer a viagem de férias com minha família.

Embora eu não sentisse mais dor, havia outros desafios, inclusive confusão mental e ataques de pânico. Quando me sentia tentado a repassar mentalmente o acontecimento, eu declarava: “O grande Eu Sou [Deus] foi, é, e será para sempre a fonte intacta de minha consciência, na qual me movimento como Sua imagem e semelhança, em perfeito alinhamento, ordem, clareza e integridade”. Agarrei-me a esta verdade que lemos em Ciência e Saúde: “O temporal e o irreal nunca tocam o eterno e o real. O mutável e o imperfeito nunca tocam o imutável e o perfeito. O desarmonioso e o autodestrutivo nunca tocam o harmonioso e o autoexistente” (p. 300).

Com essa verdade, veio a compreensão de que minha verdadeira identidade estava intacta e intocada, livre de qualquer elo condenatório com o passado, ou com alguma anormalidade no presente. Esse foi o momento em que eu li, em Ciência e Saúde, o título marginal: “Abismo intransponível”. Percebi que havia um abismo, mas não entre Deus e Seu filho amado. A separação existia apenas entre a narrativa errônea, mentirosa, e o fato verdadeiro, que diz respeito à condição de integridade eterna de nossa natureza real. Por isso, jamais poderia haver alguma ponte entre minha verdadeira identidade espiritual e a mentira da história material. Os ataques de pânico e a confusão mental desapareceram à medida que eu persisti em reconhecer esses fatos verdadeiros a respeito de minha vida no Amor e no Espírito divinos.

A lei divina do Amor substitui a história errônea pela verdade reconfortante de que fomos, somos e seremos para sempre a livre expressão de Deus, sem qualquer elo com um passado mortal e material. Ciência e Saúde explica: “...a Ciência divina revela que a corrente eterna da existência é ininterrupta e inteiramente espiritual; no entanto, isso só pode ser compreendido à medida que desaparece o senso errôneo a respeito do existir” (p. 172). Essa “corrente eterna” caracteriza nossa verdadeira identidade espiritual neste exato momento, e está para sempre intacta. 

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