Algo de que gosto na Bíblia é que ali não há a tentativa de “embelezar” os heróis que dela fazem parte.
Um exemplo claro é o relato sobre o rei Davi, incluído em uma recente Lição Bíblica do Livrete Trimestral da Ciência Cristã, cujo tema era “O castigo eterno” — uma lição que contradiz, com lógica, a noção de que exista um castigo interminável em oposição ao eterno amor de Deus (ver Isaías 54:8).
A vida de Davi, embora longe de ter sido perfeita, foi boa o bastante para que ele fosse considerado “um homem que lhe agrada [a Deus]” (ver 1 Samuel 13:14). No entanto, a luxúria da forma mais rudimentar o dominou, certo dia, e fez com que se desviasse da retidão. Ele cometeu adultério com a esposa de um súdito e, em seguida, tramou a morte do marido para que o adultério não fosse descoberto.
Foi necessário um profeta corajoso, chamado Natã, para chamar a atenção de Davi e despertá-lo para que reconhecesse o erro que cometera. E Davi realmente despertou. Sentiu genuíno arrependimento, conforme se vê em um Salmo a ele atribuído, que finaliza com a seguinte petição: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. … Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário” (Salmos 51:10, 12).
A maioria de nós não está em posição de abusar do poder de rei, como fez Davi, mas podemos nos identificar com o impulso de agir contrariamente ao nosso bom caráter, seduzidos pela luxúria e pela cobiça — seja o desejo sensual, a sede de poder ou o anseio por algo que não nos pertence.
A luxúria e a cobiça são erros que podem parecer difíceis de corrigir, ainda que tenhamos a boa vontade de nos corrigir. O que ajuda a nos libertar é o fato de que, em um nível mais profundo, esses erros realmente não fazem parte de nós, porque somos criados à imagem de Deus. Eles derivam da mentira de que somos menos do que filhos de Deus, menos do que a expressão espiritual do Espírito divino que é totalmente puro.
Por isso, há esperança para todos — seja para aqueles que consomem pornografia, para aqueles que falsificam declarações de impostos para obter ganhos financeiros, ou para aqueles que desejam a tal ponto um determinado resultado político que propõem meios imorais para alcançá-lo. Essa esperança de purificação pertence à verdadeira natureza de cada um de nós, à identidade espiritual de todos, como reflexos da pureza de Deus. À medida que essa identidade espiritual se torna mais clara em nossa consciência, também fica mais clara em nossa vivência.
A base dessa esperança não é nossa integridade pessoal, mas a capacidade de nos conscientizarmos da integridade de Deus — do fato de que Ele é eternamente Tudo-em-tudo — o que não deixa espaço para falhas morais momentâneas. Uma passagem de Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, afirma: “No silencioso santuário dos desejos fervorosos, temos de negar o pecado e declarar a totalidade de Deus. Temos de nos resolver a tomar a cruz, e prosseguir de coração honesto para trabalhar e vigiar a fim de discernir a sabedoria, a Verdade e o Amor” (Mary Baker Eddy, p. 15).
Nesse santuário, ouvimos a mensagem de Deus, ouvimos o Cristo — a verdadeira ideia de Deus que está sempre presente e ativa na consciência humana. Em oração, podemos afirmar nossa receptividade ao Cristo e prestar atenção à sua mensagem sobre o que é verdadeiro a nosso respeito. Assim como Natã fez com Davi, o Cristo nos desperta para vermos onde estamos nos desviando do nosso ponto de referência de quem espiritualmente somos, em realidade.
Ao descrever nosso ponto de referência, a Primeira Epístola de João diz: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (3:9). O pecado, portanto, é como uma camada aparente que esconde nossa identidade espiritual, mas não tem o poder de tocar ou macular essa natureza sagrada. Nossa identidade espiritual permanece intacta — para sempre. Quando parece que nos esquecemos dessa verdadeira natureza, podemos prestar atenção à mensagem do Cristo que restaura em nós um coração puro, um espírito inabalável e a alegria da salvação de Deus.
Assim como aconteceu com o rei Davi, o arrependimento e o remorso podem ser um passo necessário. E, embora Deus, o Espírito imortal, não conheça os estados e estágios da existência mortal — e, portanto, não esteja planejando nenhum castigo — os caminhos e atalhos tortuosos pelos quais o pecado nos conduz são inevitavelmente verdadeiros castigos.
Mas estes não são eternos, pois por meio da disposição de ouvir o Cristo, que denuncia as alegações do pecado, bem como da sinceridade em trilhar o caminho da renovação espiritual, deixando para trás as alegações do pecado, nós recuperamos a compreensão de nossa relação com Deus como Seus filhos amados. Sentimos o poder sanador do Cristo, que ilumina a verdade espiritual de que o pecado, assim como a doença, não têm realidade em nós, em virtude de nossa união com o Amor, Deus.
A luxúria e a cobiça são opostas à nossa natureza como reflexo do Amor. O Amor divino é real e infinito, e o erro não encontra lugar nessa infinitude, sendo, portanto, irreal. Assim como aquilo que é menor e insubstancial sempre tem de dar lugar ao maior e substancial, a luxúria e a autoindulgência não podem deixar de ceder lugar ao reflexo do Amor puro e perfeito.
