“Você é tímida ou extrovertida?” um amigo me perguntou certa vez. Rebelei-me instintivamente contra a ideia de ser rotulada — especialmente porque o extremo dessas atitudes implica ou evitar contatos sociais ou ter sempre necessidade de estar com pessoas. Respondi que gosto de poder ficar sozinha e desfrutar da companhia de mim mesma, mas gosto também de ser uma boa amiga.
Minha atitude de não aceitar rótulos e extremos também se aplica às opiniões políticas. Pois, quais são as características mentais que sobram para fazer avançar o progresso, tanto o nosso quanto o dos outros, quando duas pessoas se posicionam em extremidades opostas e nenhuma delas sai de sua rigidez — nenhuma das duas sequer ouve ou leva em consideração os motivos e desejos da outra?
No prefácio de seu livro que transforma vidas, Ciência e Saúde com a Chave das Escrituras, Mary Baker Eddy escreve: “É chegada a hora dos pensadores” (p. vii). Quero sempre ter a independência mental que recorre a Deus em busca de respostas para todas as decisões, desde a menor até a mais importante.
Porventura estamos diante da sugestão de que temos de escolher entre apoiar um pecador em sua jornada rumo à reforma e a possibilidade de corrigir uma notória decadência moral na sociedade, por deixar bem claro que o pecado não compensa? Por que deveriam essas boas tendências estar em conflito? Jesus, aquele que melhor exemplificou a sabedoria da Mente divina, ou seja, Deus, mostrou o modo compassivo e disciplinado de ajudar-nos uns aos outros, ao mesmo tempo em que aderimos a um código moral. Por exemplo, ele evitou que uma multidão apedrejasse uma mulher que se comportara de modo promíscuo. Ele não a condenou, e é bem provável que sua compaixão e compreensão quanto à verdadeira natureza da mulher como filha de Deus a levassem a se elevar moralmente, e a alcançar uma perspectiva mais pura e mais espiritual a respeito de si mesma. Mas, com sabedoria, Jesus também lhe disse: “…vai e não peques mais” (João 8:11).
A Bíblia nos apresenta alguns sinônimos de Deus, tais como Verdade, Vida, Espírito e Amor. Todos os atributos referentes a essas palavras se originam em Deus e, portanto, necessariamente se expressam em todos nós, por sermos filhos de Deus. As qualidades do Amor incluem o afeto genuíno e o perdão; as da Verdade incluem um padrão moral sadio e um comportamento disciplinado; e assim por diante. Essas qualidades não estão em conflito umas com as outras e não promovem divisões. Elas não nos depreciam nem nos enaltecem. Existem para abençoar, não para inibir ou condenar a criação de Deus, ou seja, Seus filhos e filhas. Esses atributos irradiam saúde e felicidade e agregam cooperação, não conflito, às nossas interações com os outros.
Eis alguns dos rótulos comuns que certamente não nos beneficiam, quando os aplicamos a nós mesmos: “Estou doente”, “não consigo deixar de pecar” ou, ainda, “devo estar morrendo”. Aplicá-los aos outros também não beneficia ninguém. Nenhuma dessas avaliações é verdadeira com relação a nenhum de nós, porque se baseiam na matéria — não são ancoradas no Espírito, Deus, que é o bem absoluto.
Felizmente para a humanidade inteira, o único rótulo que Deus, o Espírito, coloca em nós, Seus filhos, no primeiro capítulo do Gênesis, na Bíblia, é este: “muito bom” (ver versículo 31). A verdadeira natureza de cada um de nós, criada por Deus, é espiritual, e Deus nos deu a coragem e a sabedoria que nos capacitam a trazer a cura para qualquer situação que precise de uma solução.
Se às vezes somos tentados — seja no trabalho, seja em um jantar ou em qualquer outro lugar — a insistir que alguém aceite nosso ponto de vista como sendo o único válido, ou a rotular esse alguém como “resistente à verdade”, podemos, pelo contrário, orar por nós mesmos como fez o Salmista: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável” (Salmos 51:10). Felizmente, cada um de nós tem a autoridade dada por Deus de conhecer a si mesmo e aos outros, e de também ser conhecido como o filho muito bom de Deus.
Tenho desfrutado de horas de conversa com pessoas que têm pontos de vista opostos aos meus. Em cada uma, tenho apreciado sua expressão das qualidades divinas — quer elas mesmas tenham ou não consciência dessas qualidades. Deus é Tudo, e cada um de nós possui tudo o que Deus nos dá, por isso, em um senso verdadeiro e demonstrável, cada um já tem tudo!
Em uma de suas epístolas aos primeiros cristãos, o Apóstolo Paulo afirma, de modo claro e radical, que ele não aplicava aos filhos de Deus nenhum rótulo — judeu ou grego, escravo ou liberto, homem ou mulher — “…porque todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). Então, reconheçamos o bem que existe em todas as pessoas que encontramos, e em todos os nossos relacionamentos, elevando aos céus um cântico com estas palavras do Hinário da Ciência Cristã, declarando o que é verdadeiro a respeito de cada um de nós:
Ao homem deu o Criador
Nobreza e poder.
A imagem imortal de Deus
Reflete o Seu ser.
(Mary Alice Dayton, Hino 51, trad. © CSBD)
